Em edição histórica, evento aponta as conquistas, os desafios, as singularidades e os temas mais urgentes para a construção de uma educação antirracista
Nesta segunda-feira, 17 de novembro, a Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, foi palco para o 14º Congresso Internacional de Educação Antirracista. O evento integra a 8ª Virada da Consciência, maior festival de cultura negra da América Latina, realizado de 15 a 20 de novembro em diferentes espaços culturais da capital paulista.
O objetivo do Congresso é estimular a produção, circulação e divulgação científica e cultural focadas em perspectivas pós-coloniais africanas, afro-diaspóricas e indígena. O congresso reuniu pesquisadores, estudantes, professores e representantes de movimentos sociais para debater, trocar experiências e produzir conhecimento sobre práticas e políticas educativas antirracistas.
Em uma edição histórica, o 14º Congresso Internacional de Educação Antirracista debateu as Práticas Pedagógicas Inclusivas, Construção e Continuidade das Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial no Brasil: Cotas e Ações Afirmativas; Imaginário e Narrativas de Resistência e Transformação Social; as Tradições Linguísticas, Religiosas e Culturais Decoloniais; e a Literatura Negra e Literatura Periférica.
Combinando pesquisa e inovação, evento conectou saberes de diferentes gerações, potencializando a valorização da identidade e o protagonismo negro. “A realização do congresso é revolucionária ao buscar a superação de hierarquias étnico-raciais historicamente presentes na sociedade brasileira, promovendo uma educação capaz de enfrentar de modo efetivo as clivagens coloniais”, explica a curadora do 14º Congresso Internacional de Educação Antirracista, Guiomar de Grammont.
“Os debates fortalecem políticas afirmativas, como cotas raciais, além de consolidar práticas educativas inclusivas. Por meio de rodas de conversa, mesas redondas e simpósios, o evento amplia o diálogo entre academia, educação básica e movimentos sociais, possibilitando práticas pedagógicas transformadoras e integradas. Os temas abordados expressam a relevância do evento para a produção de uma educação mais justa, plural e inclusiva, vinculada ao combate ao racismo e à promoção da consciência histórica”, ressalta a curadora.
A professora e vice-reitora da UNILAB, Drª. Eliane Gonçalves, autora do livro “Poéticas e Versos de Resistência”, afirmou que a produção literária é um espaço de elaboração crítica e de afirmação identitária. “O letramento racial crítico vai além da capacidade de ler e escrever. É sobre interpretar o mundo a partir da própria voz, das vivências e das experiências de pessoas negras e periféricas em um movimento de autonomia narrativa e intelectual”.
A professora Yoná dos Santos (PROLAM/USP) apresentou uma pesquisa acadêmica realizada no Brasil e Colômbia com foco nas periferias das cidades de São Paulo e Cali. Na capital paulista seu estudo foi baseado nos bairros de Itaquera e Jardim Elisa Maria, ambos na zona leste. Já em Cali, o estudo aconteceu nos bairros do distrito de Água Branca.
O estudo iluminou como mulheres negras chefes de família das periferias do Brasil e da Colômbia percebem e narram a pobreza a partir de suas próprias experiências e confrontam a lógica dominante da colonialidade da mensuração. “Brasil e Colômbia compartilham uma história colonial que ainda estrutura nossas desigualdades. A raça segue sendo um marcador central nesses dois países.”
A professora aponta que “é fundamental construir indicadores sensíveis às realidades das periferias. As métricas atuais não dão conta de enxergar a complexidade das redes familiares que se formam nessas regiões, dos cuidados coletivos e das estratégias de sobrevivência. As periferias de São Paulo e Cali estão conectadas por trajetórias de resistência, negritude e produção de conhecimento a partir das margens”.
Já a professora e coordenadora de escola Tatiane Santos, especialista em educação infantil antirracista, chamou a atenção para a educação antirracista no chão do ensino. “O chão da educação infantil é onde temos que começar o trabalho de construção da identidade, pois é ali que acontece a maior parte do racismo. As crianças aprendem com a estrutura racista e replicam desde cedo”, enfatizou.
A educadora ressaltou que o chão infantil precisa ser de empoderamento. “A educação antirracista na infância representa uma conquista. A criança aprende desde cedo a associação a questão da sua beleza. Temos que estar atento nesse processo desce cedo, observando quais crianças são abraçadas, quais crianças são invisibilizadas. O cabelo é parte do corpo, representa carinho, e precisamos olhara para isso. Quando criança, eu não falava que era uma mulher preta, pois a professora não me via como uma criança bonita”.
A educadora pontuou que a educação antirracista significa responsabilizar a escola, os professores e os pais, e precisa ser trabalhada de janeiro a janeiro, não apenas em novembro. “Cada aluno é único e todos precisam ser representados nas imagens da parede, no desenho que vamos assistir, na ilustração do livro, na estética do ambiente. Temos que analisar cuidadosamente qual estética levamos para a sala de aula. Precisamos levar protagonismo ao ambiente escolar”.
O mergulho no conhecimento étnico é essencial para fundamentar o caminho e fortalecer a autoestima. Um dos aspectos abordados no Congresso foi a importância de se aprofundar nas pesquisas para diferenciar as origens, o que significa África e afro-brasileiro, pontuando que nem todo o continente africano teve representantes na diáspora africana. Quando o brasileiro fala de África, não fala de continente africano. O mergulho profundo na própria história étnica é fundamental para iluminar o presente e o futuro.
A educadora e pesquisadora Karen Horácio lembrou que, quando os amigos na sala de aula falavam da história de seus nomes, ela não sabia dizer. “Faz uma diferença muito grande saber quem nós somos. Como professora, quero democratizar a informação. Temos que levar o conhecimento o mais distante que pudermos”.
“Como professores vivemos situações muito complexas com o racismo. Quando uma mulher preta chega a um cargo de gestão, ela incomoda. Os mesmos profissionais da educação que querem combater o racismo, são as que causam o racismo. O trabalho é diário e precisamos propor caminhos”, encorajou Karen.