O enfrentamento ao racismo precisa fazer parte da sociedade durante todo o ano, e não ganhar atenção apenas em maio, quando o 13 de maio traz à tona discussões sobre a abolição da escravidão, ou em novembro, mês marcado pelo Dia da Consciência Negra. Nos outros dez meses, atitudes simples do cotidiano também podem contribuir para reconhecer preconceitos, ampliar referências e valorizar a população negra e sua participação na construção do Brasil.
Essa consciência começa nas escolhas do cotidiano: na maneira de falar, de olhar para o outro, de reagir a uma piada, de escolher referências culturais, de consumir e de perceber quem está — ou não está — representado nos diferentes espaços da sociedade.
Uma atitude importante é não naturalizar piadas, apelidos ou comentários relacionados à cor da pele, ao cabelo, aos traços físicos ou à origem de uma pessoa. Aquilo que muitas vezes é tratado como “brincadeira” pode reproduzir preconceitos e estereótipos construídos ao longo de gerações. Não rir, questionar e explicar por que determinada fala é inadequada também são maneiras de combater o racismo.
A música oferece outro caminho. Quantas vezes ouvimos uma canção sem conhecer a história do ritmo, do compositor ou da cultura que a originou? Conhecer e valorizar artistas negros e compreender a contribuição da população negra para o samba, o rap, o funk, o jazz e tantas outras manifestações ajuda a reconhecer uma parte essencial da formação cultural brasileira.
A consciência também está no olhar. Desconfiar de alguém por sua aparência, pressupor sua profissão ou condição social, mudar de comportamento diante de uma pessoa negra ou demonstrar surpresa ao encontrá-la em uma posição de liderança são comportamentos que podem passar despercebidos, mas precisam ser observados e questionados.
Ampliar referências também faz diferença. Ler autores negros, conhecer pesquisadores, intelectuais, cientistas, artistas e personalidades negras, frequentar produções culturais realizadas por profissionais negros e valorizar empreendedores e negócios liderados por pessoas negras contribuem para ampliar espaços de reconhecimento e representação.
Essa reflexão se torna ainda mais necessária diante da própria composição do Brasil. Pretos e pardos representam mais da metade da população brasileira. Olhar para esse dado também significa observar se essa maioria está representada nas empresas, nas universidades, nos espaços de decisão, na publicidade, na cultura, na política, na ciência e nas oportunidades econômicas.
“Não podemos lembrar da população negra apenas em maio e novembro. Estamos falando da maioria da população brasileira, de pessoas que estudam, trabalham, empreendem, produzem conhecimento, cultura e riqueza ao longo de todo o ano. A consciência racial precisa acompanhar essa realidade no cotidiano”, afirma José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.
No ambiente de trabalho, isso pode significar observar quem é contratado, promovido e chega às posições de liderança. Nas escolas, conhecer a história e a contribuição da população negra para a formação do país. Nas relações pessoais, significa ouvir, aprender e estar disposto a rever comportamentos que foram naturalizados ao longo do tempo.
É nesse contexto que a Virada da Consciência chega à 9ª edição, de 17 a 22 de novembro de 2026, em São Paulo. Realizada pela Universidade Zumbi dos Palmares e pela Afrobras, a iniciativa reúne cultura, literatura, esporte, música e conhecimento em uma programação que inclui a FlinkSampa, o Prêmio Zumbi de Literatura, o Afrominuto, a Corrida da Consciência e o Troféu Raça Negra.
“Novembro é um grande momento de mobilização, celebração e reflexão. Mas o verdadeiro resultado acontece quando aquilo que discutimos nesse período permanece depois que o mês termina. Consciência racial não é uma data no calendário. É uma construção permanente”, completa José Vicente.
Em maio e em novembro, datas simbólicas ajudam a ampliar a discussão. No restante do ano, existem inúmeras oportunidades para rever comportamentos, buscar novas referências, reconhecer contribuições e enfrentar o racismo. A consciência racial se constrói todos os dias.
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