Durante a programação da 8ª Virada da Consciência, o trancista e especialista em cabelos afro Lourenço Etnia Black, proprietário do salão Etnia Black e referência nacional em tranças e dreads, conduziu o workshop “Tranças e Dreads: Criação, Preenchimento e Resistência Através dos Fios”, na Universidade Zumbi dos Palmares, na tarde desta segunda-feira (17).
Conhecido por sua técnica, versatilidade e trajetória marcada pela superação e pela inovação, Lourenço compartilhou não apenas métodos profissionais, mas também reflexões profundas sobre identidade, ancestralidade, profissão e reinvenção. O encontro uniu estudantes, cabeleireiros, trancistas, barbearias, todos interessados em compreender o universo das tranças além da estética.
Logo na abertura, Lourenço provocou os participantes a ampliarem o olhar sobre o próprio trabalho:
“A gente aprende a trançar, mas depois vem a pergunta: o que eu faço com essa trança? A criatividade é o que diferencia. O professor mostra o passo. Mas a função de criar é de vocês.”
Defensor do aprendizado contínuo, ele ressaltou a importância de pesquisar, experimentar e buscar referências para além do óbvio especialmente agora, com apoio de ferramentas digitais e inteligência artificial. Para o especialista, tecnologia e tradição caminham juntas na construção de profissionais mais completos e inventivos.
Da rua ao salão: uma história de resistência e reinvenção
Em diversos momentos, Lourenço resgatou memórias da própria trajetória, marcada por dificuldades, preconceitos e transformações. Ele lembrou, por exemplo, que nos anos 1990 trancistas não eram reconhecidos como cabeleireiros, e que a estética afro enfrentava forte estigmatização.
“Quando comecei com dreads, diziam que era nojento. E isso vinha de dentro da nossa própria comunidade. Mas eu continuei, estudei, busquei conhecimento. Hoje atendo artistas, viajo dentro e fora do país, dou cursos e vivo do que sei fazer.” Afirma Lourenço.
Sua narrativa reforçou que o caminho profissional é também um movimento de abrir portas para si e para outros, uma espécie de “militância involuntária”, como descreve, pela simples persistência em existir e criar.
Durante o workshop, ele também explicou processos técnicos, materiais adequados, erros comuns e curiosidades sobre a evolução das tranças e dos dreads. Trouxe exemplos práticos sobre higienização, manutenção, escolha de produtos e transformação dos métodos ao longo dos anos.
Ao falar sobre a antiga prática de usar cera de abelha para modelar dreads, Lourenço detalhou os riscos e o aprendizado que o levou a buscar novos materiais e a compreender como fatores biológicos e químicos afetam diretamente a saúde capilar.
“Ser especialista não é só saber fazer. É entender o que se passa além do fio. O médico estuda anos e te dá um diagnóstico simples. A gente também precisa dominar muito para entregar algo com verdade.” Destacou.
Outro ponto central do encontro foi a valorização da individualidade. Para Lourenço, clientes procuram profissionais capazes de interpretar quem são e traduzir isso em imagem e esse processo exige sensibilidade e escuta ativa.
Ele relatou a história de um cliente que buscava uma trança “básica” e saiu com um projeto completamente reformulado:
“Ele disse: ‘Eu não sou qualquer pessoa. Quero uma marca minha.’ É isso que eu ensino: posicionamento. A pessoa precisa olhar e reconhecer quem você é.”
Para o especialista, trançar é mais que uma técnica: é comunicação, construção de identidade e até estratégia de vida.
Autocuidado, atitude e presença
Com sua fala firme e motivadora, Lourenço também abordou postura profissional, valorização pessoal e comportamento no ambiente da beleza. Incentivou os presentes a se apresentarem com confiança:
“Peito pra frente, cabeça erguida. Se arrume. Você trabalha com beleza. Como vai cuidar do outro se não cuida de si?”
A fala emocionou e arrancou aplausos, especialmente quando ele compartilhou experiências pessoais de superação, incluindo previsões negativas sobre seu futuro e limitações impostas por falta de oportunidades.
O tempo voou e ao longo de mais de duas horas, o público acompanhou demonstrações práticas de tranças, dreads e texturas diversas, enquanto Lourenço repetia que o aprendizado vai além dos fios:
“O que eu ensino aqui não serve só para cabelo. Serve para vida, para casa, para trabalho. O mundo não é dos espertos é de quem revoluciona.”
Ao final, reforçou que seu maior objetivo é que cada participante saia com autonomia, visão crítica, coragem para inovar e consciência da força que carrega.
“Nós fomos ensinados a não conhecer, a não experimentar, a não ir além. Mas chegou o momento de se posicionar. Olhe com quem você anda, e você vai saber quem você é.” Concluiu, Lourenço